Gostar de BDSM, ter fantasias kink ou assumir um papel de Dom, sub, top, bottom ou switch não permite, por si só, concluir nada sobre a saúde mental de uma pessoa.
De onde veio a patologização?
Durante muito tempo, práticas sadomasoquistas e interesses considerados não convencionais foram examinados principalmente a partir de modelos de doença, trauma ou desvio. Essa história influencia estigma social e, em alguns contextos, o modo como pessoas kink são recebidas em serviços de saúde.
Uma revisão de escopo publicada no Journal of Sex Research, que reuniu 60 artigos, encontrou pouco suporte para modelos que tratam BDSM, de forma geral, como expressão de psicopatologia. A mesma revisão destaca que amostras de praticantes estudadas não apresentaram taxas maiores de problemas de saúde mental ou de relacionamento.
O que as pesquisas encontram.
Estudos comparativos também questionam estereótipos. Em 2013, Wismeijer e van Assen compararam 902 praticantes BDSM com 434 controles e encontraram diferenças em personalidade, apego e bem-estar que, no conjunto, não sustentavam a ideia de funcionamento psicológico pior entre praticantes. Uma replicação publicada em 2024, com 1.907 participantes espanhóis, encontrou novamente perfis de bem-estar e apego incompatíveis com a visão de que BDSM seria, por definição, sinal de adoecimento.
O ponto não é que “BDSM melhora a saúde mental”. Esses estudos mostram algo mais limitado: a presença de interesses BDSM não deve ser usada como atalho para presumir psicopatologia.
O que os estudos não permitem concluir.
Muitas pesquisas usam amostras de conveniência, recrutadas em comunidades ou pela internet. Isso pode favorecer pessoas mais conectadas à cena, com determinados perfis demográficos ou mais dispostas a falar sobre sexualidade. Resultados encontrados em um país também não podem ser automaticamente tratados como retrato de todas as comunidades kink.
Além disso, uma pessoa kink pode ter depressão, ansiedade, transtorno bipolar, trauma ou qualquer outra condição — assim como qualquer pessoa não kink. A questão é não presumir que uma coisa explique automaticamente a outra.
Quando saúde mental entra na conversa.
Diretrizes clínicas publicadas em 2023 defendem atendimento culturalmente competente para pessoas envolvidas com kink e chamam atenção para estigma e vieses profissionais. Em uma avaliação individual, sofrimento, prejuízo funcional, consentimento, coerção, riscos e contexto importam muito mais do que a simples existência de um interesse sexual ou relacional não convencional.
Se uma prática, fantasia ou dinâmica causa sofrimento persistente, interfere na vida da pessoa ou envolve ausência de consentimento, isso merece avaliação individualizada. O Acervo não substitui atendimento médico ou psicológico.
FONTES
Brown A, Barker ED, Rahman Q. A Systematic Scoping Review of the Prevalence, Etiological, Psychological, and Interpersonal Factors Associated with BDSM.
ABRIR FONTE ↗Wismeijer AAJ, van Assen MALM. Psychological characteristics of BDSM practitioners.
ABRIR FONTE ↗Not Twisted, Just Kinky: Replication and Structural Invariance of Attachment, Personality, and Well-Being Among BDSM Practitioners.
ABRIR FONTE ↗Sprott RA et al. Clinical Guidelines for Working with Clients Involved in Kink.
ABRIR FONTE ↗Registro revisado em 29.08.2026 com base nas fontes acima. Referências comunitárias e científicas aparecem identificadas separadamente.